.A lusitana Maria João Cantinho tem a coragem de assumir o fato de que “a linguagem de poesia não tem limites”. E é esse o princípio de toda a sua criação. Não aceita barreiras à linguagem, ou melhor, a linguagem não lhe aceita barreiras. Ou inventa suas razões na capacidade direta de sonhar.O clima é onírico. E a imobilidade que ocupa este universo é a da palavra que luta contra a habitual inércia, quando o ato de narrar é procedimento de alma, chocando a linguagem andante e a outra, num levantar de aves em arribação. As imagens voam. A imanência e o ser, o medo e o brumor, a inocência e a levidade, a convalescença dos sonhos e os sonhos que se corporificam e integram os viventes, ou a natureza em torno. E Maria João Cantinho, pela limpidez e despojamento, tem algo dos videntes, dos ébrios de eternidade. Os contos se ativam de várias vozes, todas com significação, reflexos do inumerável espelho.